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Relato de Experiência Missionária em Mapinhane – Ir. Ana Claudia

“Porque eu, o Senhor teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não
temas, eu te ajudo.”
Isaías 41:13

Diante do chamado de Deus que incita à abertura e desprendimento, ao encorajar-se e ousar, reafirmei o meu sim me colocando à disposição em ser enviada a Moçambique. Era o início de uma nova fase; abri-me ao novo e desconhecido.

Entre inseguranças e receios, lancei-me e assumi a missão que me foi confiada para iniciar um projeto desejado pelas irmãs Agostinianas que ali estavam, embora algo bastante novo para àquele momento e realidade: levar à frente uma escola infantil, popularmente chamada entre os moçambicanos de “escolinha”.

O novo projeto tinha por objetivo dar atenção e cuidados indispensáveis à primeira infância a fim de suprir as necessidades próprias da idade, resguardá-las dos perigos em ficarem sozinhas em suas casas ou na rua enquanto seus pais estivessem a trabalhar em suas machambas (roça, lavoura); oportunizá-las de um convívio social sadio e orientá-las para a prática de valores, além de garantir ao menos uma refeição diária saudável, bem como, inseri-las solidamente no campo da aprendizagem cognitiva, amenizando impactos negativos, dado os contrastes entre a língua materna (falada desde o seio familiar) e a língua portuguesa, oficialmente falada.

Entre protocolos e burocracias, preparação do espaço e conversa informal com os conhecidos, aos poucos, no boca a boca foi-se divulgando a abertura das inscrições e início das atividades. A novidade soava muito bem e havia muitas expectativas. Tudo era uma questão de educar a comunidade para aquela prática que, até então, não era tida como prioridade por muitos, fosse pela falta de esclarecimento, condição ou oportunidade.

Assim, aos 28 de agosto de 2013, num espaço inicialmente pequeno, restrito estruturalmente e por acabar, foi iniciado oficialmente as atividades no Jardim Infantil Mamã Querubina com 24 crianças, entre 3 e 5 anos de idade, uma educadora, uma servente e eu.

Tudo era improvisado. Usávamos uma única sala de atividades, tínhamos um único banheiro, a servente cozinhava debaixo de uma sombra e as crianças tomavam o lanche sentadas no chão ao longo de um corredor. Tudo era muito simples e com poucos recursos, mas feito com amor e vontade. As crianças, inicialmente tímidas e desconfiadas, logo foram se soltando e se deixando encantar por uma realidade que elas, até então, não conheciam, mas que muito se identificavam.

No início de 2014 a procura foi bem maior e muito rapidamente o número de crianças aumentou, implicando a necessidade de adequar outras salas para melhor atendê-las. Aumentou, também, o número de educadoras e o de pessoas comprometidas em ajudar, sobretudo as próprias irmãs Agostinianas, desde aqui no Brasil entre leigos e outros. Recebíamos ajudas com materiais escolares, brinquedos usados, uniformes, mobília para as salas. Contudo, foi um ano bastante desafiador. A necessidade de melhorar e adequar era bem grande.

A partir de 2015 o sonho inicial não somente se solidificou como exigiu maiores adequações, construções, recursos e inovações. E, graças a Deus, não faltaram pessoas de bem que assumiram com as irmãs Agostinianas aquela missão. Muitos foram os parceiros que de maneira significante contribuíram com recursos financeiros, apoio, trabalho voluntário e formação. O Jardim Infantil Mamã Querubina cresceu em todos os sentidos; cresceu em estrutura física, número de crianças atendidas, colaboradores, qualidade e compromisso.

O Jardim Infantil Mamã Querubina transformou-se em referência na localidade de Mapinhane – Distrito de Vilankulo – por oferecer anualmente possibilidades e condições de desenvolvimento a uma centena de crianças, bem como, às famílias e à própria comunidade que se beneficia dos trabalhos gerados por esta mesma instituição.

Desde o seu início, em 2013, o Jardim Infantil contribui positivamente na comunidade de Mapinhane oferecendo às crianças não somente um lugar para ficarem, mas um ambiente saudável, lúdico e de aprendizagem, complementado pelo cultivo de valores, dedicação e amor.

É notório o desenvolvimento das crianças, a maneira como chegam no jardim infantil e o modo como passam a relacionar-se com o mundo à sua volta, como abrem-se para novos horizontes e isso vai influindo na família. Como já mencionado, o desenvolvimento não se limita a um único aspecto, mas se dá desde o conhecimento e aceitação de si, o relacionamento com diferentes grupos, o desenvolvimento e cuidado em relação à higiene pessoal, abertura em adquirir novos hábitos como, por exemplo, uso de latrinas e casas de banho, noções básicas e indispensáveis quanto ao cumprimento de regras e limites estabelecidos, visível desenvolvimento físico e muito satisfatório o desenvolvimento cognitivo, verbal e oral, corporal e musical.

Proporciona-se também às crianças aprendizagem ao que muito diz respeito à realidade delas, como o plantio e cultivo de machamba, ensinando, assim, de maneira concreta os primeiros passos desde a importância dos alimentos para consumo e sobrevivência da família, como preparação do terreno, semeadura, cultivo, cuidados necessários e colheita.

Crianças, pais, responsáveis e a comunidade em geral ecoam de maneira expressiva os impactos sentidos desde o funcionamento da escolinha. As famílias, sempre que visitadas pela equipe do Jardim do Infantil, manifestam através de palavras ou gestos toda a gratidão que sentem por terem suas crianças “nas mãos das irmãs”; agradecem pelos cuidados e, principalmente, pelo tanto que as mesmas já evoluíram. Os responsáveis dizem: as crianças sempre nos ensinam algo, seja a rezar antes da refeição, a cantar, a pedir por favor, a dizer obrigado….

A mim, enquanto irmã Agostiniana Missionária, é imensurável a satisfação em ter  proporcionado através deste serviço tantos sorrisos, tantas alegrias e experiências que marcaram a vida de centenas de crianças e suas famílias. É gratificante saber que o trabalho, um dia iniciado sob a minha responsabilidade, continua a ser desenvolvido com o mesmo comprometimento e o mesmo impacto, e que conta com parceiros que acreditam, valorizam e investem em nosso projeto, dada a idoneidade, seriedade e compromisso com que se assume desde sempre àquela missão.

Sou imensamente grata a Deus e às irmãs Agostinianas pela oportunidade de ter vivido tal experiência, ter compartilhado sonhos, ter recebido sorrisos, abraços, afeto, por ter ensinado algumas poucas coisas e por ter aprendido muito. Sou grata a Deus por cada uma daquelas vidas que Ele um dia a mim confiou e que hoje guardo em meu coração e em minhas lembranças.

Irmã Ana Claudia Ferreira Carvalho, am

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