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A Beleza dos  Dezembros: Entre o Fim  do  Tempo e a Eterna Novidade da Manjedoura

Neste outro dezembro, uma manjedoura nos faz olhar para o céu e ver o eterno, de novo

 

“I saw a stable, lowand very bare,

A little child in a manger.

The oxenknewHim, hadHim in theircare,

Tomen He was a stranger,

The safetyofthe world waslyingthere,

Andtheworld’sdanger”.

“Eu vi um estábulo, baixo e muito pobre,

Um bebezinho numa manjedoura,

Os bois o conheciam, cuidavam dele,

Para os homens, ele era um estranho,

A salvação do mundo repousava ali,

E o perigo do mundo também”.

Poema escrito por Mary Elizabeth Coleridge, poeta inglesa

 

O tempo é, de fato, um império sobre nós. As infinitas demandas consomem nossos dias, fazem que não percebamos o quanto corremos, fazemos e produzimos e, no final do ano, o calendário nos “grita” que o tempo daquele ano está findando, é dezembro de novamente. Os dezembros têm neles a capacidade de nos atravessar com força, é tão verdade que uma canção popular nossa diz: “Por dezembro atravesso, oceanos e desertos”, estamos atravessando e somos atravessados pelas memórias bonitas que guardamos. 

No entanto, para nossa realidade, eminentemente cristã, essa memória não é uma lembrança de algo que aconteceu num passado cheio distante dos nossos dias, essa memória está realizada na vida de uma pessoa. No nascimento de Jesus Cristo vemos a realização da promessa, pois a Palavra, antes habitada no coração do Eterno Pai, se faz tocável em um bebê deitado, despretensiosamente, na pobreza daquela manjedoura em Belém da Judéia.

Em o “Grande Sertão Veredas”, obra-prima de Guimarães Rosa, vemos um  testemunho único desse tempo cheio de beleza, “no Natal tudo é novo de novo”, mas fica uma questão essencial para nós, de fato, queremos ser novos de novo? Estamos abertos à novidade que a vida quer nos presentear? 

Santo Agostinho, em um de seus mais célebres pensamentos diz: Timeo Deum transeuntem et non revertentem” – “Tenho medo da graça que passa e não a percebo”. A graça que passa é nossa frieza e indiferença diante das misérias do mundo, um coração endurecido não é capaz de ter misericórdia de si próprio, muito menos de seus semelhantes. Uma pessoa sem a graça, ao olhar para o céu já não consegue enxergar a beleza das estrelas. Este grandioso mistério da criação divinal já não causa mais espanto, a magnanimidade do Criador é banal. Naquele memorial inigualável relatado por Lucas, este escreve que não havia lugar nas hospedarias de Belém, as portas estavam fechadas para Jesus, todos muito preocupados com suas próprias necessidades, suas compras e presentes. Deus pedia um lugar para “armar sua tenda no meio de nós” (Jo, 1,14), ninguém tinha tempo pra acolhê-Lo. A graça passava e ninguém parava para recebê-La. 

Que neste dezembro, ao sermos visitados pela graça transformadora que brota da manjedoura daquela pobre criança, tão indefesa, tão terna, tão divina, possamos olhar com esperança para céu, onde repousa o Eterno. Possamos nos compreender que a vida não se esgota nesta realidade, muito menos em nossas pseudo  seguranças, mas que a inquietude de nosso coração tão frágil, esse desassossego tão tenaz, só terá bom termo, só terá verdadeira paz quando aquele mesmo bebê rejeitado às portas das hospedarias de Belém, bem como pelos grandes deste mundo, for acolhido em nosso coração. Pois é Ele mesmo o Cristo de Deus, que nos diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele comigo” (Ap, 3, 20).

Por Vinicius Silva das Mercês

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