Santo Agostinho

Novembro 2017
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Plenitude de Cristo

(Reflexão –Padre Van Bavel OSA)
Todos unidos, um só corpo

“Se nas Sagradas Escrituras a única palavra do Espírito Santo fosse que Deus é amor, isso seria completamente suficiente e não teríamos que buscar nada mais” (Epístola. Jo.tr.7,4). O motivo principal da encarnação foi o amor pelo qual Deus nos deu o seu Filho. O filho é a encarnação do amor de Deus. Se Deus é amor, podemos concluir que Deus não queria ficar só, sem nenhuma relação com o mundo. Amor exige comunidade. Deus Pai gerou um único Filho de sua mesma natureza, porém não quis que ficasse sozinho; deu-lhe os seres humanos como irmãos. Cristo está numa relação universal com toda a humanidade e seu amor se estende a cada homem, sem exceção. O amor age segundo dois movimentos: o desejo de unir-se com o objeto amado e a necessidade de manter-se a alguma distância, por respeito à identidade da pessoa amada. O amor desemboca em uma presença mútua sem destruir ao outro. Assim um amigo está presente no amigo, o marido na esposa, a mãe nos filhos. Cristo se identificou com cada ser humano e está presente nele. Agostinho dá a esta união o nome de “Cristo total”, baseando-se na doutrina de Paulo – a relação de Cristo cabeça com a Igreja corpo. “Assim como o corpo é um, e os membros muitos, e todos os membros, ainda sendo muitos, formam um só corpo, assim é Cristo” (1 Cor 12,12). O Cristo total compreende cabeça e membros e essa união é tão íntima como a unidade em um corpo vivente. Desta maneira Cristo participa em nossa vida e nós na sua.

Honrai a Deus em Vós

Deus Pai é o centro de toda a vida de Jesus, por isso um bom número dessas idéias apenas mencionadas aplica-se também a Deus. A maneira de sentir-nos unidos a uma pessoa é estar unidos a ela na união superior, quer dizer no cuidado que Deus tem de todos e de cada um. Deus está presente em cada ser humano. Todo mundo pertence a Deus que ama a todos. Amando a todos, nós honramos também a Deus. Só quando os homens se fazem irmãos formam o templo novo de Deus, o lugar de sua presença, porque Deus não habita senão no amor. Antes de falar da Igreja como casa de Deus, temos que olharmos uns para os outros. “O Edifício no qual estamos é a casa de nossa oração, porém a verdadeira casa de Deus somos nós mesmos. Porém não formamos juntos a casa do Senhor se não estivermos muito unidos uns aos outros no amor” (S. 336.1.1). O amor de Deus e o amor do próximo não são competitivos; ao contrário, abraçam-se em um grande movimento dinâmico.

Cristo nos Pobres

Agostinho inspira-se principalmente em dois textos: “Senhor, quando te vimos faminto e não te demos de comer, sedento e não te demos de beber? E o Rei lhes dirá: Na verdade vos digo que quando não o fizestes com um dos meus pequenos, não o fizestes comigo” (Mt.25,37.40) e “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Atos 9,4). Agostinho explica que o Cristo ressuscitado não diz “por que persegues a meus discípulos?”, senão “por quê me persegues?” Esta identificação de Cristo com os perseguidos, os pobres, os oprimidos, os marginalizados, significa para Agostinho reconhecer a dignidade humana. Para ele, dizer ”Sê fiel ao teu próximo em sua pobreza” é o mesmo que dizer “Sê fiel a Cristo em sua pobreza”. O texto de Mateus 25 evidencia até que ponto Cristo ainda está presente neste mundo e como quer ser compreendido pelos que crêem. O sofrimento e a pobreza de Jesus Cristo refletem-se constantemente na vida e na história dos que sofrem e dos oprimidos. Durante esta peregrinação na terra se dá de comer a Cristo no faminto, de beber a Cristo no sedento, veste-se a Cristo nos maltrapilhos, acolhe-se a Cristo no forasteiro, visita-se a Cristo na pessoa do doente. Onde alguém está em perigo, é Cristo que está em perigo. “Sai à rua, Cristo, o estrangeiro, não está ausente. Vocês acreditam que não podem acolher a Cristo? Perguntem: Então, como podemos acolher a Cristo? Escutem! Aquilo que vocês fizeram com um destes pequenos, a mim fizeram (cf. S. 239.6.7). Ele, que é rico, corre risco até o fim dos tempos. Corre risco, de verdade, não em sua cabeça, senão em seus membros.

Opção pelos pobres

“Somos servidores de sua Igreja, e antes de tudo dos mais fracos na Igreja, não importa que ou quais membros de seu corpo somos” (op. Mon. 29,37). Esta observação de Agostinho nos mostra claramente a sua inquietude profunda com relação aos pobres e aos sem poder. Algumas de suas cartas, recentemente descobertas, dão-nos uma idéia mais clara de seu compromisso social. Pede ao imperador que decrete uma lei contra os negreiros. Mostra a sua preocupação com relação à venda de crianças. Os imperadores cristãos haviam autorizado vender crianças, para evitar que os seus pais as matassem caso não tivessem meios para nutri-las. Estas crianças, porém, deveriam ser libertadas, passados 25 anos. De um modo particular os camponeses recorriam a esta lei desesperadamente e alugavam ou vendiam seus filhos. Muitas vezes, isto terminava em escravidão permanente, e com este motivo Agostinho opõe-se a este abuso contra as crianças. Como bispo, Agostinho ocupa-se dos órfãos e toma medidas preventivas para que não sejam roubados por estrangeiros. Encarrega-se também de acolher e hospedar as crianças abandonadas. A Igreja de Hipona tinha o costume de ajudar aos pobres de qualquer condição: não cristãos, prostitutas, lutadores na arena, etc. Agostinho não está de acordo com o texto: “Dá ao homem bom, porém não ajudes ao pecador” (Eclo 12, 4.7) e dá sua própria opinião: “Fazei o bem ao que é humilde, porque é humilde. Não deis nada ao malvado, porque é malvado. Porque o Altíssimo odeia aos pecadores, vingar-se-á dos malvados. Porém, eles não são só pecadores e gente sem Deus, senão também homens, e por isso Deus faz sair o sol sobre bons e maus, e cair a chuva sobre justos e pecadores (Mt 5,45). Então, não negueis a misericórdia a ninguém, e não deixeis nenhum pecador impune de seus pecados. Devemos tratá-los considerando a sua natureza humana. Persigamos neles a iniqüidade pessoal, e tenhamos piedade de sua condição que os une a nós” (Cf. Sermão sobre a esmola).

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