Santo Agostinho

Novembro 2017
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Orar Sempre

A recomendação de Jesus, “é necessário orar sempre e sem desfalecer” (Lc 18,1) ou as palavras de Paulo “orai sem interrupção” (1 Tes 5,17), foram motivo de discussão na antiguidade. Como também o podem ser hoje desde uma leitura excessivamente literal. Alguns monges chegaram a pensar que a oração se opunha ao trabalho e Santo Agostinho viu-se obrigado a defender a necessidade do trabalho manual. Com este argumento de fundo, escreveu o tratado sobre o “Trabalho dos Monges” onde a atividade e a vida contemplativa se combinam e se justificam. As diferentes interpretações dos textos bíblicos sobre a ora&ção contínua, ocasionaram divisões e conflitos num convento e Aurélio, bispo de Cartago, pediu a intervenção de Agostinho.

Santo Agostinho oferece uma interpretação humana e razoável das palavras bíblicas: “Acaso rezar sem interrupção, dobramos os joelhos, prostramo-nos, ou levantamos as mãos para que Ele nos diga: ‘orai sem cessar?’. Se tal coisa nos é pedida ao dizer que oremos assim, creio que nós não podemos orar sem interrupção. Há outro tipo de oração interior que é o desejo. Seja o que for que faças, se permanece em ti o desejo daquele descanso (da vida eterna) oras sem interrupção. Se não queres interromper a oração, não cesses de desejar. Teu contínuo desejo é tua contínua voz. Calarás se desistires de amar. O frio da caridade é o silêncio do coração; o ardor da caridade é o desejo do coração. Se a caridade sempre permanece, sempre clamas” (Comentário ao Salmo 37,14).

Conseqüência desta forma de oração é que a vida cristã se converte em contínuo louvor a Deus. “Quem permanece o dia inteiro a louvar a Deus? Sugiro um remédio, para louvardes a Deus o dia inteiro, se quiseres. Seja o que for que fizeres, fazê-o bem, e louvaste a Deus. Quando cantas um hino, louvas a Deus; o que faz tua língua se tua consciência também não louvar? Prepara-te com a inocência de tuas obras para louvar a Deus o dia inteiro” (Comentário do Salmo 34,16).

“O desejo do coração é uma oração constante. Se tens incessante desejo de Deus, então oras também incessantemente (...).Ainda que a língua se cale, sempre ora o desejo de Deus. Oras sempre se desejas sempre. Quando a oração se enlanguesce? Quando o desejo se esfria” (Sermão 80,7).

Esta identificação oração-desejo é luminosa. Compreende-se, assim, porque temos que orar ainda que Deus conheça todas as nossas necessidades e leia o fundo de nossos corações: “Nosso Deus e Senhor não pretendesque nós lhe mostremos nossa vontade, pois Ele não pode desconhecê-la; pretende exercitar com a oração os nossos desejos, e assim prepara a capacidade para receber o que nos há de dar. Seu dom é muito grande, e nós somos minguados e estreitos para recebê-lo” (Carta 130, 8, 17). Assim se compreende, também, a razão da oração vocal, ainda que a oração consista, essencialmente, em um diálogo interior: Porém em certos intervalos de horas e tempos, oramos também vocalmente ao Senhor, para admoestar-nosea nós mesmos com os símbolos daquelas realidades, para adquirir consciência dos progressos que realizamos em nosso desejo, e deste modo, nos animamos com maior entusiasmo a acrescentá-lo” (Carta 130, 9,18).

Insistir sobre a oração constante poderia despertar a suspeita de que o cristianismo é uma religião espiritualista e desencarnada que separa da realidade. Por isso Sto Agostinho reflete, detidamente, sobre as palavras de Jesus e sai ao encontro da oração-alienação. Há que orar sempre porque as coisas importantes da vida – que têm uma dimensão interior – não admitem trégua. Há que amar sempre, respirar sempre. “Orai sem interrupção significa simplesmente: desejai sempre, sem cansaços, receber do Único que a pode dar, a vida feliz, quer dizer, a vida eterna. Se a desejamos sempre de Deus nosso Senhor, não cessaremos nunca de orar” (Carta 130, 9, 18).

Ninguém pode abandonar as atividades cotidianas e adotar uma postura física de adoração durante um tempo longo. O desejo, sem embargo, pode alcançar uma atitude ininterrupta de oração. “Teu desejo é tua oração; se o desejo é contínuo, contínua é a oração: O apóstolo não nos exorta em vão a orar sem interrupção. Certamente, nós não podemos dobrar os joelhos sem interrupção, não podemos prostrar nosso corpo, nem levantar as mãos para atender a esta exortação. Se assim entendemos a oração, creio que não podemos fazê-la sem interrupção. Porém existe outra oração que não conhece interrupção, é a oração interior, quer dizer, o desejo” (Comentário do Salmo 37,14). Dizer que o desejo garante a oração, não significa, de nenhum modo, excluir os tempos dedicados especificamente à oração. A recomendação de Sto Agostinho na Regra é clara: “Atendei com esmero à oração nas horas e tempos estabelecidos” (Regra 2,10). O mesmo Santo Agostinho condena que as ocupações de alguns sejam tantas no mosteiro, que não tenham tempo para unir-se à oração (O trabalho dos monges 17-.20). Um pai lembra-se de sua esposa e de seus filhos durante o tempo de trabalho e quando se acha fora de casa, como o desejo é grande, regressa o antes possível e busca o momento de estar com as pessoas que ama. Nem o telefone, nem a carta, nem a Internet suprem a presença, a carícia, o diálogo olhando-se nos olhos. Se o desejo é verdadeiro – que seria o mesmo que dizer se o amor é verdadeiro – multiplica as formas de relação, as pontes de comunicação, os momentos de encontro.

(Conferir Santiago Inzunsa, Cuadernos de Espiritualidad Agustiniana, N.33, páginas, 5-)

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